Paulo Quintiliano: Cybercriminosos têm conhecimento limitado de informática
15 de Setembro de 2009
Cleber Arruda
Redação UrbanPost, de São Paulo
“Os criminosos do espaço cibernético querem fazer dinheiro por meio de golpes”. É o que diz Paulo Quintiliano, presidente da Associação Brasileira em Alta Tecnologia (Abeat) em entrevista ao UrbanPost. O especialista fala sobre os perigos no mundo virtual, diz qual é o perfil dos criminosos na rede, os crimes mais cometidos e fala sobre a polêmica Lei “Azeredo” e como funciona a legislação em outros países.
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UrbanPost: Até que ponto o internauta pode confiar em resolver sua vida pela internet?
Paulo Quintiliano: Com o crescimento da Internet, pode-se resolver quase tudo pela grande rede. Pode-se comprar quase tudo, pode-se realizar operações financeiras, pode-se comunicar com todo o mundo e realizar quase todas as necessidades modernas da sociedade de hoje. Naturalmente, é necessária a adoção de uma série de cuidados, visando a segurança das operações realizadas pela Internet, principalmente daquelas mais sensíveis.
UrbanPost: O que o usuário pode fazer se for vítima de um crime cibernético, como ter a senhas clonadas, por exemplo?
Paulo Quintiliano: Caso o usuário se torne vítima de um crime cibernético, ele deve registrar ocorrência na Delegacia de Polícia mais próxima. Deve colecionar e imprimir todas as informações que possam contribuir para a comprovação da materialidade e da autoria do crime.
O usuário pode também perceber a ocorrência de vários crimes na Internet, como a exploração sexual de crianças, crimes do ódio e outros, em que as vítimas podem ser todos os usuários da Internet, que são ofendidos ao visualizarem imagens de crianças em cenas de sexo, por exemplo.
UrbanPost: Quais as dicas para se precaver de ações criminosas na internet?
Paulo Quintiliano: Os usuários devem tomar cuidados básicos. Dentre eles, deve-se manter o sistema operacional de seu computador sempre atualizado, proteger o computador com antivírus e firewall, não abrir mensagens não desejadas (spam) e não clicar em links não confiáveis, principalmente aqueles presentes nas mensagens eletrônicas recebidas.
UrbanPost: Quais os e-mails virais mais comuns hoje em dia? Como eles burlam os sistemas de segurança?
Paulo Quintiliano: Seguramente, a todo momento, em alguma parte do planeta, novos programas maliciosos são criados. Esses programas são disseminados por meio da Internet, causando danos aos usuários, até que os programas anti-vírus sejam atualizados e possam combatê-los.
A grande parte dos ataques sofridos pelos sistemas de informação é direcionada ao seu elo mais fraco, representado pelo usuário, pelo ser humano. Aproveitando-se da fragilidade desse elo da corrente, os criminosos do espaço cibernético investem alto no desenvolvimento de programas maliciosos visando a quebrar a segurança, normalmente com o objetivo de obter vantagens financeiras ilícitas.
UrbanPost: Quais os crimes mais praticados? E os mais comuns?
Paulo Quintiliano: Atualmente, os crimes mais comuns são aqueles que visam a obtenção de vantagens financeiras ilícitas. Ou seja, os criminosos do espaço cibernético ultimamente querem fazer dinheiro por meio de golpes, realizados com a utilização de ardis diversos. Normalmente esses golpes são realizados por meio da quebra do sigilo das informações de acesso dos internautas, como número de conta bancária e senha, número de cartão de crédito e informações complementares.
UrbanPost: Em resumo, o que são cada um destes personagens digitais: Hackers, Coders, banckers, Spammers, Laranjas? Quais as diferenças entre eles e como operam?
Paulo Quintiliano: Várias são as nomenclaturas utilizadas para se denominar os vários personagens com atuação na Internet. Normalmente esses conceitos surgem para se denominarem os “hackers” especialistas em determinadas áreas. O conceito popular e atual de “hacker” sinaliza a pessoa que pratica ilícitos por meio da Internet, enquanto que o seu conceito original é de um especialista com muito conhecimento em determinada área do saber. “Coders” são os programadores, que são pessoas com bastante conhecimento de Informática, capazes de desenvolver programas maliciosos. “Bankers” são os criminosos especializados em violar informações bancários, com propósitos criminosos. “Spammers” são pessoas que se dedicam a enviar mensagens não solicitadas, em grande volume, normalmente também com propósitos criminosos. “Laranjas” é um termo utilizado para identificar os partícipes secundários das quadrilhas, cujos nomes e identificações são utilizados para se esconderem os principais criminosos.
UrbanPost: Qual o perfil destes criminosos?
Paulo Quintiliano: Os criminosos do espaço cibernético normalmente são jovens, desocupados e, portanto, com bastante tempo disponível para essas atividades ilícitas. Ao contrário do que muitos pensam, normalmente são pessoas com conhecimentos superficiais em Informática. Grande parte deles somente consegue baixar os programas maliciosos, aprende a usá-los e executa esses programas para realizar as fraudes. Naturalmente, há uma pequena minoria que realmente sabe programar bem, que consegue escrever os programas maliciosos usados para a prática dos crimes.
UrbanPost: Qual a sua opinião sobre a lei “Azeredo”? O que pode ser melhorado? O que de fato funcionará ou não?
Paulo Quintiliano: Entendo que o Projeto de Lei do Senador Azeredo se propõe a preencher várias lacunas existentes na legislação penal pátria. Por exemplo, hoje são fatos atípicos o acesso sem autorização a sistema de informações, conduta conhecida como hacking, a produção e a disseminação de códigos maliciosos, não sendo puníveis essas condutas ilícitas por não serem consideradas crimes em nossa legislação.
Não quero dizer que esse projeto de lei seja perfeito, bem sei que ele foi objeto de algumas críticas, algumas até bem fundamentadas. Mas, sem dúvidas, esse projeto de lei representa um avanço considerável em nossa legislação, em termos de crimes cibernéticos, pois a polícia terá uma ferramenta para poder trabalhar com mais eficácia.
UrbanPost: Como funciona a legislação em outros países de modo geral?
Paulo Quintiliano: Alguns países, como os Estados Unidos, Canadá e grande parte da Europa, têm uma legislação bem mais avançada do que a nossa. Há muitos anos que a legislação penal desses países criminaliza muitas condutas ilícitas praticadas por meio do espaço cibernético.
Sabe-se, no entanto, que muitos países em desenvolvimento, principalmente da África e da América do Sul e Central, têm legislação ainda bem mais atrasada do que a brasileira.
UrbanPost: Quais os resultados dos últimos anos do evento (CCYBER)? O que se espera em novidades de ferramentas e tecnologias no que acontecerá em Natal?
Paulo Quintiliano: A ICCyber, desde a sua criação em 2004, procurou antecipar as tendências relacionadas aos crimes cibernéticos, de maneira a formar e a informar a sociedade e principalmente aos servidores públicos encarregados da persecução penal desses crimes. A ICCyber antecipou a necessidade da cooperação policial internacional para enfrentamento efetivo dos crimes cibernéticos. Antecipou e discutiu a questão dos ataques de botnets, quando quase ninguém ouvira falar desse assunto. Antecipou a questão dos crimes de abuso sexual contra as crianças, abrindo amplas discussões sobre o assunto.
Neste ano, além de reforçar temas já abordados nas edições pretéritas do evento, a ICCyber traz temas atuais como a segurança da informação na era quântica e a computação em nuvens (cloud computing).





